O Paradoxo da Eficiência: Gestão do DOGE sob Elon Musk Custou US$ 10 Bilhões em Salários a Funcionários Afastados

O Paradoxo da Eficiência: Gestão do DOGE sob Elon Musk Custou US$ 10 Bilhões em Salários a Funcionários Afastados
O Paradoxo da Eficiência: Gestão do DOGE sob Elon Musk Custou US$ 10 Bilhões em Salários a Funcionários Afastados — Foto: Reprodução / São Miguel Web

 

Um levantamento explosivo da organização PEER revela que o Departamento de Eficiência Governamental, criado para cortar gastos na administração Trump, manteve 154 mil servidores federais em licença remunerada durante 2025, gerando um "buraco negro" de responsabilidade fiscal.

Por Jardel Cassimiro Para a Revista Correio 101 16 de janeiro de 2026


Elon Musk, que liderou o Departamento de Eficiência Governamental (DOGE) nos primeiros meses do segundo mandato de Trump, enfrenta escrutínio sobre estratégias de afastamento de servidores. (Foto: Reprodução)

WASHINGTON — Em uma reviravolta irônica para uma iniciativa batizada em nome da eficiência e da redução de custos, o Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), a estrutura quase governamental liderada pelo bilionário Elon Musk durante os primeiros meses do segundo mandato de Donald Trump, está no centro de uma tempestade fiscal. Um relatório divulgado nesta sexta-feira pela organização Public Employees for Environmental Responsibility (PEER) aponta que a estratégia de "enxugamento" da máquina pública custou aos contribuintes norte-americanos mais de **US$ 10 bilhões** (aproximadamente R$ 56 bilhões) apenas em 2025.

O montante astronômico, segundo o documento, não foi destinado a indenizações ou programas de demissão voluntária, mas sim ao pagamento contínuo de salários para cerca de 154 mil funcionários federais colocados em "licença administrativa remunerada". Esse contingente representa quase 7% de toda a força de trabalho civil do governo dos Estados Unidos, criando uma classe de servidores fantasmas: pagos para não trabalhar enquanto seus departamentos aguardavam reestruturações que, em muitos casos, estagnaram.

A Contradição do DOGE

O DOGE foi anunciado com pompa no início da segunda administração Trump como a solução definitiva para o "Deep State" e o inchaço burocrático. Com a promessa de aplicar a lógica impiedosa do setor privado — espelhada nas gestões de Musk na Tesla e no X (antigo Twitter) — o departamento visava cortar trilhões do orçamento federal.

No entanto, a realidade burocrática de Washington colidiu frontalmente com as ambições do Vale do Silício. Diferente de empresas privadas, onde demissões podem ser executadas sumariamente, o serviço público federal dos EUA possui proteções estatutárias robustas.

O levantamento da PEER sugere que, diante da impossibilidade legal de demitir em massa rapidamente, a gestão do DOGE optou por afastar os servidores de suas funções, mantendo seus vencimentos.

“Gastar mais de US$ 10 bilhões do dinheiro do contribuinte para impedir pessoas de trabalhar é uma forma absurda de administrar o governo”, declarou Peter Jenkins, assessor jurídico da PEER, em entrevista ao The Guardian.

Para os críticos, o relatório expõe a falácia de tentar aplicar soluções corporativas simplistas a estruturas governamentais complexas sem um entendimento profundo da legislação vigente.

O "Buraco Negro" Jurídico e Administrativo

O cerne da denúncia reside na violação da Lei de Licença Administrativa (Administrative Leave Act). A legislação federal é clara ao limitar o afastamento remunerado a um período máximo de dez dias úteis por ano, salvo exceções extremamente restritas, geralmente ligadas a investigações de conduta.

A organização PEER sustenta que a administração Trump, sob orientação do DOGE, burlou essa limitação criando novas categorias de licença ou estendendo indefinidamente os prazos através de brechas regulatórias. O relatório descreve a situação como um "buraco negro de prestação de contas":

  1. Regras Complexas: A sobreposição de antigas e novas ordens executivas criou uma zona cinzenta onde agências federais operavam sem diretrizes claras.

  2. Falhas na Regulamentação: A ausência de fiscalização imediata permitiu que o afastamento remunerado se tornasse a norma para lidar com funcionários considerados "não alinhados" ou "redundantes", em vez de seguir os processos disciplinares ou de redução de força de trabalho (RIF) exigidos por lei.

  3. Impacto Institucional: Além do custo financeiro, há o custo operacional. Agências críticas, como a EPA (Agência de Proteção Ambiental) e departamentos ligados à infraestrutura, viram sua capacidade de resposta paralisada pela ausência de pessoal técnico experiente, que estava em casa recebendo salário.

As Consequências Políticas

A revelação chega em um momento delicado. Embora Elon Musk tenha se afastado do comando direto do DOGE após os meses iniciais para focar em suas empresas privadas e na exploração espacial, a "marca" de sua gestão permanece associada a essas decisões.

Especialistas em administração pública apontam que a responsabilização será difícil. "A combinação de mudanças administrativas rápidas e a diluição de responsabilidades entre o DOGE (que atuava como consultoria externa com poderes especiais) e as agências federais cria um cenário onde é difícil apontar quem assinou a ordem final", explica um analista de políticas públicas de Washington, que pediu anonimato.

A PEER formalizou uma denúncia ao Government Accountability Office (GAO) — o órgão equivalente ao Tribunal de Contas nos EUA — solicitando uma auditoria completa. Se as irregularidades forem confirmadas, dirigentes de agências federais que autorizaram os pagamentos podem enfrentar sanções, embora a abertura de processos dependa, ironicamente, de autoridades ligadas ao próprio governo que implementou a política.

O Legado de 2025

O ano de 2025 ficará marcado não apenas pela tentativa agressiva de reformar o estado americano, mas pelo alto preço da improvisação. O caso do DOGE serve como um estudo de caso global sobre os riscos de desmantelar estruturas públicas sem um plano de transição legalmente viável.

Enquanto o debate sobre o tamanho do estado continua sendo um pilar ideológico central, os números apresentados hoje sugerem que, na ânsia de economizar, o governo acabou pagando uma das contas mais caras da história por serviços não prestados.


Sobre o Autor: Jardel Cassimiro é jornalista sênior e correspondente especial da Revista Correio 101, cobrindo geopolítica, economia global e os bastidores do poder há mais de quatro décadas.

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