Francesco Matarazzo: o quinto homem mais rico do mundo

Francesco Matarazzo: o quinto homem mais rico do mundo
Francesco Matarazzo: o quinto homem mais rico do mundo — Foto: Reprodução / São Miguel Web

 

De mascate ao quinto homem mais rico do mundo, Francesco Matarazzo ergueu um conglomerado que sustentou São Paulo. A ruína sob a gestão de seus herdeiros expõe a letalidade da estagnação industrial e da ausência de governança corporativa no Brasil.

Quando duas toneladas de toucinho afundaram nas águas do litoral fluminense em 1881, o imigrante italiano Francesco Matarazzo perdeu tudo o que trouxera da Europa, exceto a obstinação mercadológica que o faria construir o maior complexo industrial da América Latina. O que o patriarca não previu foi que a mesma mentalidade centralizadora que ergueu um império com mais de duzentas fábricas e trinta mil funcionários seria o embrião de sua própria destruição. A saga das Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo (IRFM), que um dia representou a espinha dorsal da economia paulista e chegou a abrigar uma fortuna hoje equivalente a dezenas de bilhões de dólares, culminou em uma ruína emblemática. A transição dessa potência hegemônica para um cenário de concordatas sucessivas nas décadas seguintes consolida uma tese implacável do mercado: a ausência de um planejamento sucessório profissional e a recusa à inovação tecnológica formam a receita perfeita para o colapso corporativo.

A trajetória de expansão de Francesco Matarazzo desenhou-se sobre a falha crônica de infraestrutura do Brasil na virada do século dezoito para o dezenove. Estabelecido em São Paulo após um período como mascate em Sorocaba, ele compreendeu que o gargalo comercial do país não residia apenas no produto, mas na logística e no acondicionamento. Ao substituir as velhas barricas de madeira por latas de metal para a venda de banha, ele aumentou a durabilidade do alimento, permitiu o fracionamento e derrubou o preço frente à concorrência importada. Estava inaugurada a lógica que pautaria sua dinastia: produzir internamente a custos baixos o que a nação importava a peso de ouro. A inauguração do Moinho Matarazzo, o mais moderno do continente, marcou o início de uma era de verticalização industrial inédita no hemisfério sul. A estratégia corporativa abrangeu a criação simultânea de tecelagens, fábricas de sacos para embalagem, maquinário para sabão e óleo, linhas de móveis, metalurgia avançada, usinas de açúcar, frigoríficos, polos químicos, destilarias e até uma frota própria de navegação. Isso tornou o conglomerado autossuficiente e imune às oscilações de fornecedores externos.

Do ponto de vista da administração moderna, o modelo das IRFM representou o ápice da integração vertical. No entanto, o gigantismo escondeu uma vulnerabilidade que eclodiria após a morte do conde, em 1937. A governança do grupo era estritamente personalista. Ao repassar o comando a seu herdeiro direto, Francisco Matarazzo Júnior, conhecido como Chiquinho, o império foi entregue a um gestor avesso ao risco em um período de profunda transformação tecnológica. Enquanto o mundo pós-Segunda Guerra Mundial abraçava a automação, a especialização flexível e as novas cadeias globais de suprimentos, as indústrias Matarazzo mantiveram seu maquinário obsoleto. O erro estratégico mais documentado dessa gestão conservadora foi a recusa taxativa ao convite do então presidente Juscelino Kubitschek para integrar a incipiente indústria automobilística no Brasil ao lado da Volkswagen. A justificativa de "não conhecer o setor" revelou a incapacidade da diretoria de diversificar a matriz produtiva de maneira moderna, optando por sangrar os caixas das fábricas centenárias, que já não suportavam a concorrência de empresas mais enxutas e focadas.

O desmonte das Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo redesenhou a geografia econômica e o mercado de trabalho de São Paulo. No auge, estima-se que cerca de seis por cento da população paulistana dependesse, direta ou indiretamente, dos salários e operações do grupo. A partir dos anos sessenta, com a estagnação produtiva e o primeiro balanço financeiro negativo registrado oficialmente em 1969, iniciou-se um ciclo de demissões em massa e sucateamento de galpões. A derrocada culminou em uma série de concordatas na década de oitenta, desarticulando redes de fornecimento regionais e deixando um rastro de passivos trabalhistas. O impacto urbanístico também foi severo, legando a São Paulo vastas áreas industriais abandonadas, muitas das quais passaram décadas em disputas judiciais antes de serem convertidas em shoppings centers e empreendimentos imobiliários fragmentados.

Apesar da responsabilidade inegável da gestão familiar conservadora, analistas econômicos e historiadores apontam que a queda não pode ser atribuída exclusivamente à inércia de Chiquinho Matarazzo. O ambiente macroeconômico brasileiro na segunda metade do século vinte tornou-se extremamente hostil ao modelo de integração vertical absoluta. A inflação galopante, as novas e rígidas legislações trabalhistas implementadas durante a Era Vargas e as sucessivas aberturas de mercado tornaram financeiramente insustentável a manutenção de um ecossistema em que a mesma empresa produzia desde o prego até o navio cargueiro. A concorrência de multinacionais altamente subsidiadas e especializadas que desembarcaram no Brasil durante os anos do "Milagre Econômico" acelerou a obsolescência do grupo. Sob essa ótica, mesmo um gestor visionário teria encontrado imensas dificuldades em reestruturar a tempo o paquidérmico maquinário das IRFM.

O caso Matarazzo consolidou-se como o estudo de caso definitivo nas escolas de negócios sobre a transição de empresas familiares. A tendência atual do mercado corporativo rejeita a lealdade cega à linhagem sanguínea em favor da profissionalização executiva. Conglomerados modernos adotam conselhos de administração independentes e métricas rigorosas de Environmental, Social, and Governance (ESG) para garantir a perenidade das operações. A cisão de ativos, a abertura de capital na bolsa de valores e a contratação de CEOs sem vínculos afetivos com os fundadores tornaram-se protocolos padrão. Isso é feito para evitar que o patrimônio construído em décadas seja dilapidado por conflitos de herdeiros ou incapacidade técnica em uma única geração.


Por Jardel Cassimiro

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