Levantamento da consultoria global Brand Finance avalia cerveja mexicana em US$ 13,9 bilhões, aponta avanço de 15% do banco brasileiro e comprova concentração de 79% do valor corporativo entre Brasil e México.
A cerveja mexicana Corona Extra consolidou-se, pelo terceiro ano consecutivo, como o ativo corporativo intangível mais valioso de toda a América Latina, atingindo a avaliação de US$ 13,9 bilhões após registrar um crescimento econômico anual de 4%, de acordo com os dados consolidados do relatório Latin America 100 2026, produzido pela consultoria internacional Brand Finance.
A configuração do topo do ranking traduz com fidelidade o arranjo macroeconômico predominante na América Latina, caracterizado pela estabilidade inelástica de produtos voltados ao consumo em massa e por um ecossistema financeiro altamente rentável e concentrado. Dentro do universo dos dez maiores ativos continentais, os mercados do Brasil e do México absorvem conjuntamente cerca de 79% do valor integral computado, o que evidencia uma disparidade industrial acentuada frente às economias de menor liquidez ou fustigadas por instabilidades monetárias recorrentes. Logo atrás do trio que lidera a pesquisa, a empresa de comércio eletrônico Mercado Livre figura na quarta posição regional com US$ 6,1 bilhões, seguida pela varejista mexicana Bodega Aurrera com US$ 5,5 bilhões, pela operadora de telecomunicações Claro com US$ 5,0 bilhões e pelo Banco do Brasil, que empata no mesmo patamar de US$ 5,0 bilhões.
A metodologia atuarial aplicada pela Brand Finance fundamenta-se nas diretrizes internacionais da norma ISO 10668, complementada pelas boas práticas de governança descritas pela norma ISO 20671. Para mensurar monetariamente os ativos, a consultoria recorre à abordagem técnica de Alívio de Royalties (Royalty Relief), cálculo contábil que estima o volume financeiro que uma corporação poupa ao deter a titularidade da marca própria em vez de licenciá-la de uma entidade independente no mercado aberto. O cálculo projeta fluxos de receitas futuras atribuíveis à chancela comercial, descontando as taxas de royalties pertinentes e ajustando as previsões aos riscos de custo de capital soberano de cada país avaliado. De maneira paralela ao valor monetário bruto, o levantamento mensura a reputação institucional por intermédio do Índice de Força da Marca (Brand Strength Index - BSI), métrica ponderada de zero a cem que avalia investimentos em comunicação, lealdade de base de clientes e consideração de compra. Sob esse crivo estrito de musculatura institucional, a seguradora brasileira Porto despontou na liderança absoluta de toda a América Latina ao cravar 96,9 pontos, superando concorrentes diretos e antecedendo o Nubank com 95,2 pontos e a marca alimentícia Sadia com 93,5 pontos. Em termos de velocidade de expansão financeira no continente, o banco de investimentos BTG Pactual apresentou o avanço mais vigoroso de todo o período, ao expandir seu valor de marca em 103% e ascender trinta e sete colocações no índice, transitando do 92º lugar obtido em 2025 para a 55ª posição.
O predomínio de empresas ligadas ao consumo imediato e às operações bancárias gera impactos concretos sobre a dinâmica do capital na região, criando barreiras de entrada praticamente intransponíveis para competidores emergentes em nível internacional. Para as multinacionais do setor de bebidas, a consolidação de nomes como Corona Extra e Modelo Especial comprova que estratégias de segmentação global de produtos premium sustentam margens operacionais elevadas, mesmo diante da retração do poder de compra médio em centros urbanos. Na esfera dos serviços bancários, a coexistência bem-sucedida entre instituições tradicionais como Itaú e Banco do Brasil, ao lado de bancos inteiramente digitais como o Nubank, confirma que a reputação de mercado deixou de gravitar exclusivamente em torno de agências territoriais físicas, passando a depender da resiliência tecnológica, da fluidez do crédito e da segurança transacional. O valor da marca, portanto, deixa de figurar como uma abstração mercadológica e atua como elemento propulsor de valorização em bolsas de valores, atraindo aportes de investidores institucionais globais que consideram os ativos intangíveis como garantias primordiais de geração de fluxo de caixa futuro.
Não obstante a celebração dos números agregados, analistas econômicos destacam o contraditório gerado pela concentração hegemônica em apenas dois polos geográficos. Enquanto o México se ancora no acesso preferencial ao consumo dos Estados Unidos e o Brasil mobiliza a escala de seu mercado doméstico continental, nações como Argentina, Chile e Colômbia vêm assistindo à erosão do prestígio internacional de suas corporações em função de desvalorizações cambiais estruturais, taxas de juros voláteis e instabilidade de marcos fiscais. No setor cervejeiro, apesar dos ganhos da AB InBev e do crescimento vertiginoso da brasileira Brahma — que apurou valorização de 65% em seu ativo de marca —, o segmento passa a conviver com crescentes exigências regulatórias.
As tendências corporativas projetadas para os próximos ciclos de apuração da Brand Finance apontam para a continuidade da migração do valor de mercado em direção à hiperconectividade e à responsabilidade socioambiental. A ascensão sistemática do Nubank e o avanço galopante do BTG Pactual demonstram que as barreiras de fidelidade do sistema bancário se tornaram porosas, obrigando as lideranças históricas a investir somas vultosas em inteligência artificial preditiva e plataformas digitais para reter depósitos e manter seus prêmios de mercado. Paralelamente, o mercado de bens de consumo em massa será condicionado à capacidade de alinhar rentabilidade com metas verificáveis de sustentabilidade, como reciclagem de insumos e neutralização das pegadas industriais de carbono. A manutenção do topo do ranking latino-americano, em um ambiente de escrutínio público acentuado, dependerá cada vez menos da tradição histórica e muito mais da habilidade de converter reputação ética e funcional em valor tangível continuado.
Por Jardel Cassimiro.
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