Discurso austero de Warsh coloca Fed sob pressão e eleva apostas de alta nos juros americanos em setembro

Discurso austero de Warsh coloca Fed sob pressão e eleva apostas de alta nos juros americanos em setembro
Discurso austero de Warsh coloca Fed sob pressão e eleva apostas de alta nos juros americanos em setembro — Foto: Reprodução / São Miguel Web

 

Persistência inflacionária e resiliência do emprego reduzem margem de manobra do Banco Central dos Estados Unidos, ampliando a volatilidade nos mercados globais.

WASHINGTON — O pronunciamento incisivo do presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, durante o simpósio econômico de Jackson Hole, alterou a precificação dos ativos financeiros globais e colocou a autoridade monetária norte-americana em uma encruzilhada decisiva para a reunião de política monetária de setembro. Ao enfatizar que o Banco Central dos Estados Unidos ainda tem trabalho substancial a realizar para ancorar a inflação na meta de 2%, a cúpula do Fed sinalizou que a tolerância com desvios persistentes de preços chegou ao limite, elevando a probabilidade de uma retomada imediata do ciclo de aperto monetário.

A inflexão retórica ocorre em um momento de estagnação na convergência do núcleo dos índices de preços. Embora o aperto monetário prévio tenha afastado os picos inflacionários observados em ciclos passados, o Índice de Preços das Despesas de Consumo Pessoal (PCE) subjacente permaneceu em 3,7% na leitura de julho, com mais da metade dos componentes da cesta de consumo registrando avanços anuais superiores a 3%. A constatação de que as pressões de custos não cederam na velocidade esperada encurralou o comitê, que já registrou dissidências internas favoráveis à elevação dos juros no encontro de julho, quando a taxa básica foi mantida no intervalo de 3,50% a 3,75% ao ano.

Do ponto de vista técnico, a trajetória das taxas de curto prazo passa a depender exclusivamente dos indicadores de emprego e inflação referentes a agosto. O relatório de criação de vagas de trabalho (Nonfarm Payrolls) e os índices de preços ao consumidor (CPI e PCE) funcionarão como o fiel da balança para os integrantes do Federal Open Market Committee (FOMC). Se os dados confirmarem que o mercado de trabalho mantém ritmo de aquecimento capaz de realimentar a espiral salarial, a autoridade monetária será compelida a elevar a taxa dos Fed Funds no dia 16 de setembro, sob o risco de perder a ancoragem das expectativas inflacionárias de médio e longo prazo.

A reação do mercado financeiro internacional foi imediata, refletindo o reposicionamento dos investidores diante do aperto nas condições de liquidez. Os rendimentos dos títulos do Tesouro norte-americano (Treasuries) avançaram tanto nos vértices curtos quanto nos de longo prazo, com os contratos futuros de juros na CME Group elevando substancialmente as apostas em um acréscimo de 0,25 ponto percentual. O movimento impulsionou o dólar frente a uma cesta de divisas internacionais e desencadeou correções nos índices acionários de Wall Street, repercutindo com especial severidade sobre praças emergentes, onde o encarecimento do custo de capital externo impõe cautela redobrada às autoridades monetárias locais.

Apesar da postura rígida demonstrada por Warsh, correntes analíticas ponderam que um aperto adicional nos juros carrega o risco de desacelerar excessivamente setores sensíveis ao crédito, como habitação e bens de capital, em um momento de incertezas geopolíticas e fiscais. A tendência predominante para as próximas semanas, contudo, é de forte aversão ao risco até a divulgação dos relatórios oficiais de atividade e preços, momento em que o Fed terá o veredito final sobre a necessidade de elevar novamente o custo do dinheiro na maior economia do planeta.

Por Jardel Cassimiro.

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