Raízes Familiares, Pragmatismo e os Bastidores do Rompimento entre Luciano Barbosa e Célia Rocha

Raízes Familiares, Pragmatismo e os Bastidores do Rompimento entre Luciano Barbosa e Célia Rocha
Raízes Familiares, Pragmatismo e os Bastidores do Rompimento entre Luciano Barbosa e Célia Rocha — Foto: Reprodução / São Miguel Web

 

A ascensão da tradicional linhagem Pereira Rocha, a consolidação da dinastia Barbosa no Agreste e o choque de interesses na sucessão estadual que desfez a aliança mais longeva da política alagoana

O cenário político de Alagoas testemunha a fratura definitiva da aliança mais longeva e influente do interior do estado. O rompimento público e irrevogável entre a médica e ex-prefeita Célia Maria Barbosa Rocha e o atual chefe do Executivo de Arapiraca, o engenheiro José Luciano Barbosa da Silva, encerra três décadas de alternância e controle absoluto sobre o segundo maior colégio eleitoral alagoano. Embora o desfecho tenha ganhado contornos passionais com as recentes declarações de Célia, a fissura entre as duas lideranças reflete o ápice de um processo calculado de transição geracional, em que a preservação do poder familiar e o pragmatismo da sucessão majoritária estadual falaram mais alto do que os compromissos históricos firmados no final do século passado.

Para compreender a magnitude dessa separação, é imperativo revisitar a árvore genealógica e a inserção social de ambos no solo arapiraquense. Célia Rocha carrega em seu DNA os alicerces da própria identidade urbana e desportiva do município. Nascida em Arapiraca em outubro de 1952, ela é filha de Antônio Pereira Rocha, figura lendária do comércio local e principal idealizador da Agremiação Sportiva Arapiraquense (ASA), e de dona Zélia Barbosa Rocha. Formada em Medicina com especialização em Pediatria, Célia conquistou capital político direto a partir do atendimento médico humanizado e do trabalho comunitário nas maternidades e postos de saúde da região. Sua inserção formal na gestão pública ocorreu em 1985, quando assumiu a Secretaria Municipal de Saúde para implantar o Sistema Único e Descentralizado de Saúde (SUDS), feito que a catapultou à Câmara de Vereadores — onde se tornou a primeira mulher a presidir a Mesa Diretora — e, subsequentemente, à vitória histórica para o comando da prefeitura em 1996 e 2000.

Já a trajetória de Luciano Barbosa reflete uma linhagem de formação técnica de elite associada a uma habilidade ímpar de articulação nos bastidores institucionais. Nascido em Palmeira dos Índios, em agosto de 1958, Barbosa graduou-se em Engenharia Civil pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e buscou especialização no exterior, concluindo mestrado em Economia e Gestão na prestigiosa Universidade Columbia, em Nova York. Fixando suas raízes profissionais e familiares definitivamente em Arapiraca, ele integrou a equipe de Célia Rocha no início do primeiro mandato da médica, em 1997, comandando secretarias estratégicas como Planejamento e Educação. A projeção técnica sob a chancela da família Rocha abriu portas em Brasília: em 2002, sob as bênçãos de Renan Calheiros no Senado, Luciano assumiu o Ministério da Integração Nacional no governo federal. Em 2004, quando Célia encerrava seu segundo mandato com aprovação recorde, foi ela quem patrocinou e viabilizou pessoalmente a primeira eleição de Luciano para o Palácio Isaías Amorim, selando um pacto de lealdade mútua que parecia inquebrável.

Entre 1996 e 2024, o grupo comandado pela dupla dominou de ponta a ponta as urnas do Agreste. Célia elegeu-se prefeita em duas ocasiões (1996 e 2000), transferiu o bastão para Luciano (eleito em 2004 e reeleito em 2008), retornou ao Executivo em 2012 e acompanhou a consolidação estadual de Barbosa como vice-governador e secretário de Educação de Alagoas a partir de 2015. Contudo, a evolução do clã Barbosa redefiniu as prioridades do prefeito. A entrada do deputado federal Daniel Barbosa no cenário político e a estruturação da pré-candidatura do advogado Lucas Barbosa para a Assembleia Legislativa transformaram Luciano no patriarca de uma nova dinastia que necessitava de autonomia total de articulação partidária, descolando-se da tutela moral do passado.

O catalisador da ruptura definitiva foi a disputa pela sucessão ao Palácio República dos Palmares. Movida pelo desejo de retomar protagonismo após passagens discretas no cenário federal, Célia Rocha aceitou, sem uma coordenação prévia com a máquina de Arapiraca, o convite para figurar como candidata a vice-governadora na chapa de oposição liderada pelo prefeito de Maceió, JHC. A composição atraiu o arco de forças do deputado federal Arthur Lira, o Partido Liberal e frentes ligadas ao bolsonarismo, colidindo frontalmente com a aliança de sustentação de Luciano. Ao agir de modo autônomo, Célia ignorou que o prefeito de Arapiraca priorizava resguardar a viabilidade eleitoral de seus filhos dentro do campo de centro-esquerda governista, cujo principal articulador é o ex-governador e ministro Renan Filho (MDB).

A resposta de Luciano Barbosa foi executada com frieza milimétrica. Ao invés de ceder à pressão emocional da ex-aliada, o prefeito chancelou a indicação de seu ex-secretário de Governo e antigo vice-prefeito, Yale Fernandes, para a vaga de vice-governador na chapa encabeçada pelo MDB. Com um movimento cirúrgico, Luciano neutralizou a narrativa regionalista que a chapa de JHC pretendia explorar no Agreste com o nome de Célia, garantindo a fidelidade dos principais grupos econômicos e políticos de Arapiraca em torno da candidatura emedebista e assegurando espaço institucional para Daniel Barbosa e Lucas Barbosa.

Do ponto de vista do contraditório, Célia Rocha não poupou mágoas ao externar sua indignação pública, declarando ter sido traída no compromisso tácito de que Luciano jamais caminharia em um palanque oposto ao seu. Ela sublinha ter sido a criadora da carreira política de Barbosa e a responsável direta por colocá-lo na prefeitura. Do lado do prefeito, interlocutores da gestão sustentam que a política contemporânea não comporta cheques em branco e que a decisão unilateral da ex-prefeita de compor com o bloco de Arthur Lira colocou em risco o próprio registro partidário de Lucas Barbosa no PSDB, forçando o Paço Municipal a agir em legítima defesa de seus projetos estratégicos.

A despeito da ferida aberta no plano majoritário, o eleitorado arapiraquense assiste a uma curiosa contradição: mesmo magoada com o prefeito, Célia mantém publicamente seu compromisso de voto em Daniel e Lucas Barbosa na esfera proporcional. Essa divisão demonstra a complexidade das teias familiares construídas ao longo de décadas no Agreste, onde os laços afetivos com os filhos do antigo aliado resistem, mas a aliança entre os caciques fundadores desmoronou em definitivo diante da realpolitik alagoana.

Por Jardel Cassimiro.

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